FUGITIVOS – EPÍLOGO

Uma mecha de cabelo loiro descia sob o rosto da oficial Lisa Dias. Os lábios estavam fechados em I, as mãos cruzadas sobre o peito e o brilho dos olhos apagado. Olhando assim, ela nem parecia aquela policial corajosa e destemida de quem tantos  tinham orgulho.

Martin colocou a mecha de volta no lugar.

– Não se… vá. Fique conosco.

Eram quase duas semanas sem Lisa. E agora, ele se questionava porque nunca dissera a ela. Desde o ataque de Arbost, a distância entre os dois parecia estar aumentando. Principalmente, porque Martin defendia o justiceiro Garra e Lisa o abominava embora nunca tivesse expressado seus motivos para tal raiva. Entretanto, seria isso o suficiente? Martin estava tão preocupado com Castle Rock, com os monstros, com seus poderes e a origem deles que se esquecera dela.

Tantas vezes pensara em dizer a Lisa ou convidá-la para sair. Seria o primeiro passo? Luke o incentivara um milhão de vezes, mas ele continuava congelado. Por quê? Por que era tão difícil dizer que sentia algo especial pela oficial Dias?

Ele se levantou e tocou a mão de Lisa.

– Não desista. Eu… espero por você.

O detetive saiu do quarto. Luke estava esperando do lado de fora. Martin assentiu a cabeça.

Os dois amigos saíram do hospital pela décima oitava vez desde que Lisa estava internada. E pela décima oitava vez saíram em silêncio.

***

Naquela noite, uma mulher estava sendo despedaçada. O sangue dela jorrava no beco enquanto uma criatura humanóide abocanhava seu pescoço. A mulher não tivera tempo de gritar e nem sentira dor na hora da morte. Foi tudo muito rápido. A criatura tinha planejado assim. A criatura não queria matar, mas a sede era maior. A sede por sangue. A criatura precisava se saciar. A criatura tinha forma humana. A criatura era um homem. O nome do homem era Dawson.

FIM DA TEMPORADA

POR NAÔR WILLIANS

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FUGITIVOS – CAPÍTULO 27

O Garra, Jailson e Dawson alcançaram o local onde Martin estava pouco depois. O detetive olhava para o horizonte escuro enquanto o corpo inerte de Drak jazia ao seu lado.

Em seguida, Luke também chegou em um carro de polícia da delegacia, preocupado.

Martin se levantou e andou na direção de seus companheiros.

– Você está bem? – questionou o chefe.

O detetive assentiu positivamente com a cabeça.

– Droga! Que porcaria. O que aconteceu aqui? Sofremos um acidente e quando acordei, o chefe e todo mundo tinha sumido – resmungou Luke.

O Garra se aproximou do corpo com um aparelho e coletou uma amostra.

O sangue no braço de Dawson estava voltando a escorrer aos poucos, mesmo depois do curativo improvisado. 

– Poderá fazer seu relatório depois, detetive Martin – disse Jailson tocando no ombro do rapaz.

– Obrigado, chefe.

– E quanto a delegacia? – perguntou o Garra.

Luke suspirou.

– Um verdadeiro massacre – respondeu – Mas o subchefe conseguiu revidar. Marcos Aurélio ainda está vivo. E Lisa… Lisa – ele engoliu a saliva – Lisa está na UTI. Ela foi esfaqueada.

A escuridão da BlackStreet açoitou o rosto de todos. Um gosto amargo de perda paraiva ainda mais próximo deles.

– Que droga – resmungou Dawson.

O Garra andou na direção de seu carro, onde o estranho motorista ainda aguardava calado.

– Aonde pensa que vai? – disse Jailson.

Martin tocou o ombro do chefe.

– Por hoje, basta – falou o detetive.

Jailson olhou para Martin. Abaixou a cabeça e assentiu. O mascarado entrou no veículo e foi embora.

– É melhor voltarmos – disse Luke – O subchefe deve estar preocupado.

Todos concordaram.

***

No dia seguinte, Jailson reagrupou os policiais restantes e voltou ao local onde Cid tinha sido assassinado. Logo depois, retornaram também ao local onde o corpo de Drak jazia. 

Entretanto, para a surpresa do chefe, encontraram lá dois agentes do FBI: Júlia e Derek. Jailson passou o relatório para eles. No relatório dizia que Drak tinha sido morto por um tiro. 

– Já sabemos do relatório, senhor Jailson – disse Derek cruzando os braços fortes entre o peitoral definido – Mas segundo pudemos analisar neste espaço de tempo, chegamos a conclusão de que houve uma luta aqui. Uma luta muito estranha.

– Do que está falando? 

– Procuramos informações sobre esta cidade e ela não parece tão pacata quanto afirmam seus relatórios.

– Duvida da minha palavra, agente Júlia?

– Depois do incidente atual com robôs gigantes e conspirações, estamos procurando a fundo sobre os fatos que envolvem esta cidade – disse Derek – Eu e a minha parceira temos a leve impressão de que os responsáveis pela queda de Castle Rock não foram terroristas.

– Ora, foi o FBI quem chegou a esta conclusão – retrucou Jailson.

– Não há conclusão, senhor Jailson – falou Júlia com a voz um pouco mais alta – O que nós temos são destroços de uma máquina e resquícios ainda desconhecidos, até mesmo pela química.

– Achei que o trabalho de vocês fosse descobrir essas coisas estranhas. Eu estou fazendo o meu trabalho aqui. Resolvo os casos e mantenho a cidade a salvo com meu grupo de policiais.

– Não tão a salvo pelo visto – Derek apontou para o redor.

– Você não tem noção do quanto sofremos para manter esta cidade a salvo.

– Acho que sabemos. Vimos a oficial Dias no hospital – confessou o agente.

Jailson franziu a testa. Eles estavam começando a passar dos limites.

– Soubemos que ela continua em coma e sob observação. Os médicos disseram que ela perdeu muito sangue. Alguns chegaram a dizer que é um milagre ela estar viva – explicou Júlia.

– Lisa é muito forte, graças a Deus por isso.

– Também interrogamos Marcos Aurélio, o sobrevivente deste novo atentado.

– Isto não foi um atentado – retrucou Jailson aumentando o tom de voz – Foi vingança.

– Sim, você escreveu assim no seu relatório.

– Escutem, agentes. Eu tenho que terminar uma limpeza e como perceberam, temos poucos policiais. Por isso, se tiverem dúvidas ou acusações para fazer, peço que me procurem depois. E caso as informações do meu relatório não sejam suficientes, vocês tem a liberdade para investigarem.

– Estamos de olho, Jailson.

O chefe ignorou e deixou os agentes sozinhos. Mesmo assim, Jailson se questionou por quanto tempo Castle Rock estaria fora da visão do governo. As coisas estranhas que aconteciam lá não eram para o mundo e por isso ele mantivera esse segredo. Entretanto, com mais e mais desgraças caminhando a passos largos na direção da cidade, o chefe se perguntava quanto tempo de liberdade Castle Rock ainda tinha.

 

CONTINUA…

POR NAÔR WILLIANS

 

 

 

FUGITIVOS – CAPÍTULO 26

As garras nas mãos de Drak chamaram a atenção de Martin. O detetive estava preparado. Ele podia sentir dentro de si aquele sentido desconhecido lutando para sair. A sua parte estranha e inumana clamando para ser libertada.

Drak investiu rapidamente contra Martin. O detetive conseguiu visualizar todo o ataque e desviou no segundo exato. Rolou para o lado e num salto estava de pé novamente.

– Os boatos sobre você eram verdadeiros. Eu teria estraçalhado qualquer humano normal agora mesmo.

Martin não deu atenção aos comentários. Drak era rápido. Realmente seu sentido inumano o salvara do retalhamento.

– O destino de duas raças nas mãos de dois mutantes – disse o híbrido – Quanta irônia, não é?

Drak investiu novamente, um pouco mais lento. Foi tempo o bastante para Martin desviar do golpe, fechar o punho direito e acertar o rival no ombro.

Drak foi lançado com o rosto no asfalto. Martin não perdeu o ritmo. Retesou o peito e desferiu outro golpe com o punho esquerdo. O híbrido saltou no último instante, desviando do ataque que deixou um buraco no asfalto. A cabeça de Drak teria voado em mil pedaços se ainda estivesse caído ali. E foi quando Martin começou a perceber que estava mais forte – outra vez – e que o mutante dentro dele estava mais violento. Aquele golpe era para finalizar o inimigo. Uma finalização fatal.

– Para alguém que defende a lei, você parece não se importar em acabar com seus adversários – comentou Drak – Não achei que estivesse falando sério quando disse que ia acabar comigo.

Martin não respondeu. Mas sua mão tremeu vagamente. Alguma coisa havia mudado dentro dele – outra vez. Essa constante mudança costumava fazer Martin se questionar quem era ou o que ele era. 

Drak retesou o peito. As garras estavam aumentando nas mãos do monstro. Martin constatou que ele ia atacar com tudo dessa vez. O detetive não podia errar. A sensação estava voltando. A violenta face de Martin. Um lado obscuro inflamando seus punhos. Uma voz sussurrando: “Acabe com ele, detetive. Acabe com ele em um golpe.”

O híbrido avançou mais rápido do que na primeira vez. Martin enxergou as garras passando rente ao seu rosto famintas para rasgar sua pele. O detetive saltou para trás. Drak não parou. Martin defendeu um golpe do monstro com o braço esquerdo e desferiu um ataque com o direito. Drak desviou e o detetive pôde ver pequenas ondas no ar causadas pelo efeito do seu ataque.

Nesse meio tempo de distração, Drak encontrou sua brecha e acertou o peito do detetive com suas garras. Martin foi arremessado para trás com força, mas não caiu. Sua camisa se rasgou, entretanto, não havia sangue e nem ferimento.

Drak olhou, incrédulo.

– Como isso… – o híbrido se distraiu – Como pode existir um pele tão dura que não seja rasgada por minhas garras?

Foi naquele momento que Martin investiu. Drak levantou os braços para se defender. Foi inútil. Martin acertou o monstro no rosto com um golpe que arrancou metade dos dentes de sua boca e o lançou no chão, dez metros a frente.

Drak gemeu de dor. Um de seus braços estava torcido ao contrário e seu tornozelo direito estava quebrado. Havia muito sangue em sua boca. O pulmão ardia como se estivesse sobre brasas.

A sombra de Martin se projetou e o monstro se virou com dificuldade. Quando se movimento, percebeu que seu peito estava aberto.

– Em toda a história do meu mundo -ele cuspiu sangue seguido de um grito de dor – Não existiu ninguém capaz de resistir às garras dos híbridos. Sequer as armaduras que os humanos no nosso mundo criaram.

Martin não respondeu nada, apenas olhava a criatura com desdém. Ele sabia que sua pele estava mais dura. Nenhuma arma estava ferindo-o. O próprio detetive fizera o teste. Provavelmente, tinha adquirido essa nova estranheza depois da luta contra Arbost e os lagartos. Como? Ele ainda não sabia.

Entretanto, para a surpresa de Martin, Drak ficou em pé num salto. Seu braço retorcido voltou ao normal e seu tornozelo estava bom novamente.

O monstro acertou o rosto do detetive com as garras numa investida desesperada. Entretanto, assim como antes, Martin não foi sequer ferido pelo ataque. O detetive segurou o pulso de Drak e apertou, quebrando. O monstro urrou. Tentou abocanhar Martin no pescoço, mas o detetive desferiu um soco certeiro no rosto do monstro.

Drak voou ao alto e caiu no chão com alguns ossos quebrados. Sangue escorreu de seus lábios outra vez.

Porém, Martin não esperou para ver. O detetive sentiu aquela fúria inumana controlando-o. “Acabe com ele. Acabe com ele.” 

A escuridão encobriu a estrada. O dia tinha dado seu adeus. Drak enxergou um silhueta acima de si. Mas não era o detetive Martin Santos. Era alguma outra parte dentro dele. Uma criatura ofegante e faminta de sangue.

E foi assim que Martin Santos desferiu o soco que despedaçou a cabeça de Drak. 

CONTINUA…

POR NAÔR WILLIANS

FUGITIVOS – CAPÍTULO 25

Antes que os últimos resquícios de sol desaparecessem no horizonte. O Garra, Dawson e Jailson viram um carro se aproximando rapidamente.

– Ele chegou – disse o mascarado.

O braço de Dawson estava melhorando, graças a um improviso que ele mesmo fizera. Provavelmente levaria alguns pontos quando chegasse ao hospital.

– Quem está com você? – questionou o chefe.

– Está pergunta nunca deve ser feita a ele. Apenas agradeça pela carona.

– Acha que vai continuar se safando sempre que faço uma pergunta?

– No dia em que meu acerto de contas chegar, vou contar o que você quer. Até lá, não devo nem essa carona a você.

Jailson encarou o mascarado, mas Dawson tocou o ombro do chefe como se quissesse dizer que não era o momento ideial para tal discussão. Jailson nunca aceitaria um justiceiro em sua jurisdição. E se não fossem os estragos causados por Arbost, a busca por Garra já teria começado.

O carro era um Vectra preto. Parou rente ao meio fio e os três entraram no veículo.

O motorista também estava mascarado e não disse nada quando eles entraram.

– Sabe para onde ir – disse o Garra.

O Vectra fez a volta e partiu em alta velocidade.

***

Luke estava voltando para o local do acidente. Não pudera esperar. Lisa ainda estava na sala de operação e ele não sabia quanto tempo levaria. 

Por isso, o detetive achara por bem ir atrás dos outros. Passara na delegacia para avisar sobre o quadro de Lisa para o subchefe e depois partira. E óbvio que Carlos quis ir na busca, mas Luke não permitira porque o subchefe precisava ficar na delegacia controlando as coisas. Ele parecia bem abatido e cansado aos olhos de Luke. Talvez fosse demais para todos. No hospital, Luke ficara sabendo que Robert estava sendo tratado a base de tranquilizantes e que tentara se matar duas vezes.

O detetive continuava a se questionar a brevidade da vida e como ela parecia tão frágil ao pensar bem.

– Primeiro, Arbost e seu ataque – pensou ele consigo mesmo – Agora esse tal de Drak. Esta cidade não tem um momento de trégua?

Dentro, lá no fundo, nos recantos de sua mente, Luke conseguia ouvir uma voz dizendo que não. Castle Rock estava fadada ao sofrimento. Quase como uma maldição antiga, pairando sobre a cidade e seus habitantes.

E depois dos últimos eventos, Luke começava a se questionar quanto tempo ele e seus amigos estariam isentos dessa maldição. Com Lisa no hospital, o subchefe abatido, Martin e os outros desaparecidos, o carma de Castle Rock estava cobrando caro dos detetives.

 

CONTINUA…

POR NAÔR WILLIANS

FUGITIVOS – CAPÍTULO 24

Martin encarou seu inimigo, incrédulo.

– Do que você está falando?

Drak sorriu, zombando da cara do detetive. Martin se sentia tenso ao ver que o bandido não se amedrontava de jeito nenhum.

– A fenda está se abrindo, Martin. 

– Chega de falar em enigmas! O que é você?! Disse que está aqui por mim, por quê?!

Drak trocou a posição de pernas do lugar. Não tão tranquilamente quanto antes, Martin percebeu.

– Eu venho de outra dimensão.

Martin franziu a testa, mas não disse nada na espera da explicação do bandido.

– Nesta realidade,  a raça humana não está evoluída o suficiente para entender os mistérios que cercam seu universo. Afinal, seu universo ainda é muito jovem. Mas de onde venho, isso é muito diferente. Eu sou conhecido como um híbrido. Uma criatura amaldiçoada a viver do sangue de outras raças.

Martin mantinha os punhos cerrados. Ainda não entendia porque estava ouvindo aquela história rídicula. Outra dimensão? Não fazia sentido. Drak estava blefando, o detetive tinha certeza disso.

– No meu universo, a convivência entre humanos e híbridos despencou em uma guerra. E sinto orgulho em dizer que os híbridos venceram. A raça humana foi extinta. Entretanto, os híbridos descobriram que o fim da raça humana tinha decretado sua própria extinção, afinal de onde tirariam seu sangue? E foi assim que a guerra entre os próprios híbridos aconteceu. Mas também foi assim que descobrimos a façanha mais extraordinária de nossa história. Quando sugamos o sangue de outro híbrido, ganhamos mais força e prolongamos nossa vida. 

– Quer mesmo que eu acredite nessa história? – questionou Martin.

– Foi você quem pediu para te contar. Se vai acreditar ou não, isso pouco me importa. 

– Você é apenas outra dessas criaturas malditas que rondam essa blackstreet. Criaturas que eu trabalho para exterminar.

– E de onde você acha que vem essas criaturas, detetive? Daqui de Castle Rock? Por acaso acha que uma mágica ocorre ou que elas são feitas do barro como os Orcs?

– Eu não me importo de onde vem, o meu trabalho é acabar com vocês.

– Tolice. Isso pode ser infinito. E quando alguém como eu chegar e derrotar você, o que vai acontecer com a raça humana? Sei que você é mais inteligente que isso, Martin. Só está cego pela raiva, mas há de concordar que eu estou certo.

– Por que está dizendo isso? Se você estiver falando a verdade, o mais sábio seria invadir Castle Rock sem que eu soubesse.

– Destruir os humanos outra vez? Eu não vou repetir o mesmo erro que meus antepassados. Se não houver humanos, não haverão híbridos. Somos parte de uma mesma coisa.

– Então que porcaria você quer?

– Eu vim pedir um tratado de paz.

– O quê?! – questionou Martin.

– Sou o líder dos híbridos no meu universo. Nosso destino era devorar uns aos outros, mas então eu encontrei a fenda – Drak trocou outra vez a posição dos pés – E cá estou. O que nós queremos é uma chance de viver entre vocês.

– Você deve ter ficado maluco. Não vou permitir isso.

– Sugiro que pense bem.

Martin não parava de pensar em uma forma de acabar com Drak. E mais ainda, pensava se de fato, aquela criatura – ou o que quer fosse – merecia viver. Era difícil acreditar em qualquer palavra de Drak, principalmente porque Martin não conseguia esquecer da morte de Alice e da situação de Robert. E se o chefe tivesse morrido na cabana com Cid? E se fosse Dawson? Como ele podia acreditar em uma criatura que causara toda essa merda.

– Vou te dar apenas uma chance – disse Martin num tom autoritário; ele não sabia bem porque estava dizendo isso – Volte para sua terra, se essa história rídicula for verdade. Porque se eu te encontrar outra vez aqui, juro que acabo com você.

Drak abaixou a cabeça.

– Você não compreende, né? – disse a criatura – Eu não vou voltar. Fiz uma proposta generosa e não quer dizer que vou embora se você não aceitá-la. Meu povo terá outra chance, por bem ou por mal.

Martin apertou os punhos. Ele podia sentir aquela sua outra parte fluindo em suas veias. 

– Então acabo com você agora mesmo – disse o detetive.

 

CONTINUA…

POR NAÔR WILLIANS

 

 

FUGITIVOS – CAPÍTULO 23

Luke estava no hospital. Lisa tinha sido levado pelos médicos há quase dez minutos. A moça não estava respirando quando ele chegar ao local. Os médicos iam tentar reanimá-la. Era a única chance. 

O detetive olhou seu celular. Tinha ligado inúmeras vezes para Martin e Jailson naquele meio tempo. Ninguém atendia. O telefone do chefe estava fora de área. O rapaz recordou do acidente inusitado na estrada. Ele desmaira por alguns minutos  e quando voltara a si, todos tinham sumido. Por sorte, encontrara um carro ainda funcionando e partira rumo a delegacia.

Luke pensava insistentemente que se chegasse dois segundos mais tarde, o subchefe estaria morto. E mais do que isso, ele se questionava quantos policiais tinham sobrevivido ao ataque e se Lisa sairia viva dessa.

Ainda, para piorar, tinha Martin e o Garra. O detetive se remoía ao pensar se os dois estavam bem. Martin não tinha dado notícia alguma -o que não era novidade. Mas ele também não atendia o telefone – isso era ruim.

Luke se encontrava em uma encruzilhada. Ir atrás de Martin e do chefe ou esperar com o subchefe. Outra vez, o policial lidava com esses questionamentos em sua carreira. Quase todo o caso, Luke era obrigado a pensar sobre isso. A questão era sempre ir ou não ir.

O detetive olhou para seu relógio de pulso. Eram quase seis da tarde. O sol estava se escondendo no horizonte. Se a noite chegasse, Luke teria mais dificuldade ainda para localizar os parceiros. Ir ou não ir?

***

– Aconteceu alguma coisa – disse o Garra analisando seu celular.

Dawson e Jailson olharam para ele. Os dois estavam sentados na beira da estrada.

– Martin está parado – explicou o justiceiro mascarado.

– O quê? – questionou o chefe se levantando.

– Lembra do localizador? Está sinalizando que Martin está parado.

– Talvez ele tenha encontrado e jogado fora – refutou Dawson.

– Nem que a vaca falasse – resmungou o Garra – Algo está acontecendo. O localizador da moto sinaliza que ela está fora da estrada.

O chefe passou a mão na cabeça e praguejou em silêncio. Parte da estrada estava começando a ser encoberta pela escuridão. Ficar na Black Street a noite não era a melhor opção.

– É o Drak – disse o mascarado guardando seu celular.

– Como tem tanta certeza? – perguntou Jailson.

– Eu não tenho. É apenas intuição. E acredite, poucas vezes minha intuição me deixou na mão.

– O que vamos fazer? – questionou Dawson se levantando também.

– A ajuda está a caminho – disse o Garra.

O chefe olhou para ele, um pouco impressionado.

– Ué, você não achou que eu ia embora no carro da polícia, né? – perguntou o mascarado.

A escuridão continuava avançando lentamente dominando o pouco de luz do dia que restava.

– Tomara que essa ajuda venha rápido – disse Dawson olhando para os outros dois.

 

CONTINUA…

POR NAÔR WILLIANS

FUGITIVOS – CAPÍTULO 22

O som de tiro ecoou no salão da delegacia.

A oficial Dias suspirou. Um último suspiro.

Marcos Aurélio caiu de lado, desajeitado. Sua calibre doze voou para o lado contrário. Carlos encarou sua sorte, desacreditado.

Luke estava na porta da delegacia. Ele tinha disparado contra o bandido.

Marcos Aurélio gemeu de dor e o subchefe olhou para o lado. O assassino ainda não estava morto. Luke só tinha disparado no ombro do bandido.

Logo em seguida, o detetive apareceu algemando o assassino.

– Você está bem, subchefe?

– Diabos, rapaz! Se você uma mulher eu lhe daria um beijo agora mesmo.

– Não é querendo ofender, mas eu não o beijaria.

Carlos se ergueu com um pouco de dificuldade. Sua perna estava começando a arder cada vez mais.

– Não temos muito tempo – disse o subchefe – Lisa está ferida no primeiro andar. Preciso que você cuide dela o mais rápido possível.

Luke olhou para Carlos, um semblante cansado e preocupado. O subchefe estava prestes a perguntar o que tinha acontecido com os outros, mas não era a hora certa – ainda não.

Luke correu para o primeiro andar enquanto Carlos encarava um Marcos Aurélio gemendo por uma ferida de bala no ombro. No lado esquerdo, um pouco distante, estava o corpo de Francisco Chagas.

– Matei um homem – disse ele a si mesmo.

Não era o primeiro, mas o subchefe tinha aprendido a duras custas sobre tirar vidas. Anos atrás, no ínicio de sua carreira, empolgado por ter apreendido um bandido perigoso na primeira semana de trabalho, Carlos atirara em um homem e o levara a óbito. Pouco depois, o subchefe descobrira que o homem assassinado era inocente. Carlos tinha deixado uma criança de sete anos sem pai e uma dívida que jamais pagara. Desde então, seu revolver só era usado no último caso. 

Luke apareceu carregando a oficial Dias.

– Você vai ficar bem? – perguntou caminhando na direção da saída.

– Vou sim, Luke. Agora cuide da Lisa. Rápido.

O rapaz andou mais depressa e desapareceu na saída da delegacia. O subchefe mancou até a calibre doze no chão enquanto algumas pessoas – assustadas e cautelosas – entravam no local prontas para ajudar. Luke tinha pedido isso para elas.

– O que devemos fazer? – perguntou um rapaz.

Havia pelo menos umas vinte pessoas ali. Carlos designou uma atividade para cada uma. Ele mesmo gostaria de ajudar, mas sua perna latejava a cada vez que ele pisava no chão.

Carlos fitou Marcos Aurélio outra vez. Sua vida estivera por um fio por causa daquele malandro. E a vida de Lisa? O subchefe continuava torcendo para que a oficial ficasse bem. E se ela não ficasse? Provavelmente, Marcos Aurélio seria levado para um prisão na cidade vizinha, já que Castle Rock ainda se recuperava dos estragos feitos por Arbost. Mas a pobre oficial Dias seria enterrada e com o tempo, esquecida. Era justo? E aqueles policiais que tinham morrido na hora do ataque? 

O subchefe fitou os corpos com fardas. Famílias, filhos sem pais, esposas sem maridos. E Marcos Aurélio ia simplesmente pagar uma pena na cadeia? Carlos questionou sua própria justiça. Ele não atirava nos bandidos porque errara uma vez. Mas era justo? 

As mãos do subchefe apertaram a calibre doze. Ele olhou outra vez para Marcos Aurélio. Um tiro. Aquele verme não poderia continuar vivo. E correr o risco de vê-lo matando novamente?

Carlos apontou a arma para o assassino. Algumas pessoas recuaram, assustadas. Marcos Aurélio tropeçou e caiu ajoelhado. Seu braço contorceu na queda e ele gritou de dor.

– Não, subchefe – disse uma voz.

Era um dos policiais da delegacia. Rodrigo. Ele estava sangrando e sem alguns dedos da mão – mas ainda vivo.

– O que torna você diferente dele é só isso – continuou o rapaz.

A imagem de uma criança de sete anos voltou para a mente do subchefe. Ele abaixou a arma com as mãos tremendo. 

Rodrigo pegou a calibre doze de Carlos e a entregou para outra pessoa. O subchefe se agachou, levou as mãos ao rosto e chorou.

 

CONTINUA…

POR NAÔR WILLIANS